Poemas

 
Ode ao Gato
 
Tu e eu temos de permeio 
a rebeldia que desassossega, 
a matéria compulsiva dos sentidos. 
Que ninguém nos dome, 
que ninguém tente 
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza, 
pois nós temos fôlegos largos 
de vento e de névoa 
para de novo nos erguermos 
e, sobre o desconsolo dos escombros, 
formarmos o salto 
que leva à glória ou à morte, 
conforme a harmonia dos astros 
e a regra elementar do destino. 

José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"

Poemas

Os Mochos
 
Sob os feixos onde habitam, 
Os mochos formam em filas; 
Fugindo as rubras pupilas, 
Mudos e quietos, meditam. 

E assim permanecerão 
Até o Sol se ir deitar 
No leito enorme do mar, 
Sob um sombrio edredão. 

Do seu exemplo, tirai 
Proveitoso ensinamento: 
— Fugí do mundo, evitai 

O bulício e o movimento... 
Quem atrás de sombras vai, 
Só logra arrependimento! 

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 
Tradução de Delfim Guimarães 

Poemas

Aqui Louvo os Animais
 
Súbdito só de quem não reina, 
aqui louvo os animais. 
Há, entre mim e eles, uma funda 
relação de videntes: 
as paisagens que fendem 
e a minha, sepulta, 
perfazem um mesmo habitat. 
Desde que os não sondo, 
fez-se luz em nosso convívio. 
O ar inicial 
que ensaiava, icárico, 
nas bolas de sabão, 
mas não atina com o vácuo 
da cidade, vem-me 
dos seus pulmões arborescentes. 
Alheios à sua pele 
na osmose dos textos, 
ignoram que nas águas 
por correr, desta página, 
cruzam, saudando-se, 
o «Beagle» e a Arca de Noé. 

Sebastião Alba, in 'O Limite Diáfano'

Poemas

Uma Toupeira na Calçada
 
Vi uma toupeira na calçada. 

As toupeiras não se dão bem em calçadas 
– elas que têm no solo arável o seu habitat – 
mas aquelas estava ali inexplicavelmente. 

Uma aventura que acabou mal, 
pensei para comigo. 

A toupeira extraviada na calçada 
esbracejava (se assim se pode dizer) 
como um náufrago que não tem bóia nem tábua. 

Tentava refugiar-se na terra 
a que pertencia. Mas, desfavorável, 
a pedra não se deixava fender das suas unhas, 
tal como a água se não deixa nadar 
do desespero do náufrago 
que não tem tábua nem bóia. 

Estava-se mesmo a ver como a coisa ia acabar. 

Enquanto tivesse forças, a toupeira, 
embora perplexa daquele lugar hostil, 
continuaria sempre a esbracejar, 
arranhando em vão a pedra da calçada. 
Depois, algum gato havia de passar por ali 
(há sempre um gato que passa ‘por ali’) 
e daria o remate apropriado 
a esta história sem história. 
No fim de contas, uma toupeira é um rato, 
não é verdade? (Pergunta o gato.) 

Meditando na sorte da toupeira, 
enquanto o gato ainda anda por longe, 
ocorreu-me então que a calçada 
podia muito bem ser um espelho 
e a toupeira naufragada 
a nossa imagem reflectida nele. 

Toupeira em calçada todos nós. 

A. M. Pires Cabral, in 'Cobra-d'Água'

Poemas

A Matança
 
Não penses 
que a carne apenas é aquela oca 
lívida carcaça 
em imóvel galope alucinado, 
embarrada numa trave da adega. 

Não penses 
que o milagre anual da salgadeira 
vem sem morte e sem trabalhos. Não: 

Contar-te-ei 
que primeiro atam o porco em sua loja 
com uma corda em torno do focinho 
e o arrastam à força para o ar lavado e frio. 

Contar-te-ei 
que o porco luta e resiste: ora sentado 
sobre os quartos traseiros (os futuros presuntos), 
ora comicamente no solo as quatro patas 
fincando com bravura se defende 
da mal-agourada violação. Por fim, cedendo, 
colocam-no, ainda contrafeito, 
entre roncos, bufos e sacões, 
no banco, deitado sobre o lado, 
por forma a expor o vulnerável, 
comestível coração. 

Contar-te-ei 
que quando a faca penetra nas entranhas, 
qual punhal vingador de antiga fome, 
o grito é tal, tão desolado e aflito, 
tão humano, tão digno de compaixão, 
tão de criatura insultada e indefesa - 
que tenho de tapar a mãos ambas os ouvidos 
e recuar para os fundos da casa, 
onde o rumor mal chegue. Ainda assim, 
a voz implorativa é uma cascata, 
uma cascata lenta e descendente, 
em que o animal se esvai. 
Quando calado - o sangue 
jorrando impetuoso no alguidar - 
é sinal que 
         o porco é morto: 
                        viva o porco! 

A. M. Pires Cabral, in 'Algures a Nordeste, Catálogo de simples, feios e humildes'

Poemas

Alcool
 
 Guilhotinas, pelouros e castelos 
Resvalam longamente em procissão; 
Volteiam-me crepúsculos amarelos, 
Mordidos, doentios de roxidão. 

Batem asas d'auréola aos meus ouvidos, 
Grifam-me sons de côr e de perfumes, 
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes, 
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos. 

Respiro-me no ar que ao longe vem, 
Da luz que me ilumina participo; 
Quero reunir-me, e todo me dissipo - 
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além... 

Corro em volta de mim sem me encontrar... 
Tudo oscila e se abate como espuma... 
Um disco de ouro surge a voltear... 
Fecho os meus olhos com pavor da bruma... 

Que droga foi a que me inoculei? 
Ópio d'inferno em vez de paraíso?... 
Que sortilégio a mim próprio lancei? 
Como é que em dor genial eu me eterizo? 

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu, 
Foi alcool mais raro e penetrante: 
É só de mim que eu ando delirante - 
Manhã tão forte que me anoiteceu. 

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

Poemas

Bemdito Sejas
 
Bemdito sejas, 
Meu verdadeiro conforto 
E meu verdadeiro amigo! 

Quando a sombra, quando a noite 
Dos altos céus vem descendo, 
A minha dôr, 
Estremecendo, acórda... 

A minha dôr é um leão 
Que lentamente mordendo 
Me devora o coração. 

Canto e chóro amargamente; 
Mas a dôr, indiferente, 
Continúa... 

Então, 
Febríl, quase louco, 
Corro a ti, vinho louvado! 
- E a minha dôr adormece, 
E o leão é socegado. 

Quanto mais bêbo mais dórme: 
Vinho adorado, 
O teu poder é enorme! 

E eu vos digo, almas em chaga, 
Ó almas tristes sangrando: 
Andarei sempre 
Em constante bebedeira! 

Grande vida! 

- Ter o vinho por amante 
E a morte por companheira! 

António Botto, in 'Canções'